O CAMPO DE TRIGO
Este santo foi de graça quando ouviu e atendeu meu apelo mariano (aquela, revestida de sol, de estrelas coroada); veio de perto, trouxe água, e quando a verteu na fonte seca, o pano que acobertava a cena, levantou-se, e foi possível ver o campo de trigo em sua terra; era dourado, laranja, mel e caramelo, assim como os tons de Van Gogh (o ensolarado).
E em seu fértil campo de trigo, cujas espigas se eriçavam com toda força, era possível fazer nele meu playground love, já que um air de música bachiana também lá vivia, tudo junto assim como uma doce profusão de pérolas.
Era também anjo que ia começar, num futuro próximo, a voar, planar, fazer tudo o que fosse possível no ar. E se é anjo, tem asa, faço para ele meu pedido: em meu terreno, sobrevoe e pouse (pause). E eu poderei, sempre, lhe dizer sempre: Anytime, anyway you’re my playground love.
Seguindo nesta erotrip, Barthes/64 diz que “[...] minha propensão (eu sujeito apaixonado) é alimentar o ser amado (você sujeito apaixonante), fartamente, com contida emoção, do meu amor, do teu, do nosso, já que a declaração não diz respeito à confissão do amor, mas à forma, infinitamente comentada, da relação amorosa. A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem em você. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é 'eu te desejo', e libertá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, te envolvo em minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação. Falo amorosamente, gastando interminavelmente, sem crise; pratico uma relação sem orgasmo: é o coïtus reservatus.”
E ter tocado em seu corpo (santo), em sua espádua, “torre de marfim, que fresca e rija carnadura ostenta” me fez fremir, descompassar, pois por você, talvez até posso fazer um escândalo, cometer um crime; por este desvelo, tenho mil amores de motivo para fazê-lo, à flor da pele, à flor do pêlo (você é meu zelo). Divago, deliro até assim, ó meu amigo, meu amado: o teu sexo cheira jasmim, teu corpo é alvo camélia, teu cheiro grudando em mim enleva-me assim, assim; sou Orfeu, sou Ofélia (sou erotômano).
E para ter você, meu senhor, cumpro a divina inácia: "Trabalha como se tudo dependesse de ti. Confia como se tudo dependesse de Deus”, posto que Eu: I have found what I’m looking for; Você: strawberry fields forever (perhaps?!); Nós: Jesus and Mary bless so much (in chain), pois assim se corporifica meu desejo por ti: quero ser parte do teu ser, o teu corpo, ser do teu sangue, tua pele e pêlos, dentes e saliva, calcificar-me em teus ossos para também sê-lo, selando-me à tua carne, me incorporando, sendo parte, estando dentro, tal qual Rute/1: “Aonde fores, eu irei; aonde habitares, eu habitarei. O teu povo é meu povo, e o teu Deus, meu Deus. Na terra em que morreres quero também eu morrer e aí ser sepultado. O Senhor trate-me com todo o rigor, se outra coisa, a não ser a morte, me separar de ti”.


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