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sexta-feira, 15 de abril de 2011


 AVE DE ARRIBAÇÃO
 Era como aquele século...
Tempos sombrios, a morte espreitava, a dureza sentia, a guerra estava feita! Só restava esperar para ser ceifado. Erva seca se recolhe e queima. Tudo estava errado. As leis tinham se invertido. Uma pane na mecânica celeste. A alegria se esvaíra; desvitalizado, drenado, seco se fazia. Nada tinha o retorno esperado; era como semear num terreno árido. As sementes nem chegavam a germinar, apesar de toda a dedicação e cuidados que se davam. Estava condenado, o terreno era maldito, jurado à perdição, estéril como o útero de uma pobre mulher que há muito envelhecera, esquecida nos tempos de meu Deus. Vivia e sabia ser amargo com a desdita daquela era.

Todavia lutava, aguardando o dia da grande luz, quando essa situação mudaria – assim estava escrito no livro dos vivos. Confiante esperava, com a paciência de um tecelão do tempo, pronto para entregar para o seu povo o tapete da vida – Sansara seria, e assim sairia; estava sendo feito com todo o seu amor, sereno, abnegado, eterno, digno de um Essênio.

Não levara muito tempo para aprender a ler o livro da vida. Cedo ela viera bater à sua porta e não hesitou em acolhê-la; não tinha como fazer o contrário, pois sabia que era sensato não tentar bani-la, visto que, se assim o fizesse, ela nunca deixaria de insistir, e cada vez com mais veemência. Fora sábio ao agir dessa forma – assim aprendera com os seus mestres.

Naquele dia, ele fora presenteado com horas douradas. Ora, ora! Que belo presente. E orava... A cor violeta lançara-a em seu presente, e tudo ficou tão belo, que lhe ofuscava os olhos, as mãos, todo o seu corpo; e seu coração, agradecido, expandia, devolvendo-se num sorriso, que se perdia numa expressão de muita paz. A música da mãe Terra o embalava, e ele bailava seu corpo nu, na maravilhosa melodia daquela que dera a luz, o chão, o alimento a todos os seres, irmãos seus, pois bem sabia que “todos eram frutos da mesma tamareira!” E honrado, passou por todos os lugares do mundo, incensando tudo com sua grata felicidade. Nesse momento, teve consciência de seu grande amor por aquela que era sua casa, paradisíaco presente do criador. Tal enlevo aprendera com Govinda, quando o seguira em sua peregrinação.

Porém, havia dias em que se aborrecia, em que aborrecia semelhante a um bebê, cujos jovens pais ainda não sabem  como satisfazer as suas necessidades; e assim,  entristecia-se por ser tão cruel, tão imperativo – soberano se fazia, como se lhe fosse algo hierarquicamente passado; contudo, sabia que assim não o era, e perguntava às flores de onde vinha toda essa onda que o avassalava. Elas simplesmente ficavam em profundo contato com ele, dando-lhe sua essência, seu aroma, sua beleza, com a perspectiva de totalmente transformá-lo se ele não mais resistisse e se entregasse à sua magia – era a maneira pela qual elas respondiam-lhe sobre tal enigma. Pouco a pouco, rígido como era, ele ia lhes permitindo agir, tomar conta de seu ser, pois também sabia o quão sábio era, novamente, unir-se a mais uma obra de seu pai/mãe, para fazer com que o seu todo se desfragmentasse; afinal de contas, tudo o que existe nesses céus e terra é um único elemento, como já lhe havia dito o Santo Dervixe.

Nesses mesmos momentos, sentia-se acorrentado a ele mesmo, a sua estrada e a tudo o que adquirira nela em sua caminhada, ou melhor, àquilo que ia se aderindo à sua pele. Eram tantos preceitos, valores, condutas, que ele não sabia como responder. Ousava ser coerente a ele mesmo, e sempre que assim o fazia, assim como dar um tiro no escuro, acertava, mesmo que com isso tivesse um preço a pagar – era assim, como percebera na trilha dos homens, que a vida pedia; muitas vezes, sentia que não ia conseguir, e dessa forma, crescia; doía, mas crescia, e se perguntava se a marcha devia ser assim mesmo, se não havia uma outra forma, suave, de fazer com que as “acontecências”, a roda da vida, seguissem o seu rumo e o conduzissem àquela paz e amor tão desejados, pois queria, ardentemente, experimentar o “delicado da vida” - não aceitava que a mesma tivesse que ser tão cruel, uma vez que fora concebida pelo perfeito. Se assim o fosse, a história não lhe fora corretamente contada, e ficaria furioso com essa armada, não se sabe de quem, de quê; não, não haveria de ser assim. O leite e mel que manam desse campo sagrado lhe eram de direito, como de todos os seus irmãos. Sentia que tinha isso como desafio: encontrar o elo que se perdera na revolução do cosmos e assim religar a corrente da vida. Seria o libertador, aquele que quebraria os grilhões, que iluminaria a tenebrosa senda dos vivos – messiânico se sentia e temia que isso fosse mais uma das inúmeras viagens a que todos se passam. Restava conferir, viver, sentir, e ver que luz daria do que se chegava ao seu coração e mente.

Uma janela de ouro se lhe abria, assim considerava esse propósito em sua vida; era seu esteio, seu veio, seu mais fértil campo, e isso o enobrecia, sentia-se satisfeito com essa rota, pois lhe era muito próprio, muito particular, havia eco em seu ser, e como um aprendiz desse sábio caminho, entregava-se, queria ver que paisagem era aquela que havia por de trás dessa janela. Talvez os seus talentos – teria que sê-lo, mesmo porque isso o encantava desde a mais tenra idade. Gostava de ser útil, provedor, amigo, um restaurador de vidas que se acabavam, que se perdiam na marcha do infinito.

Mesmo quando o cansaço, a dúvida, o desencanto o tomavam, dentro de si, a luz nunca se apagava; ela aquecia, mostrava outras portas, que o conduziriam àquela meta. Como de hábito, ainda se indagava por que não deveria ser ele por ele mesmo, por que teria que levar também a carga alheia; só a sua lhe bastava, ou realmente não estava entendendo nada, e a pretensão, a presunção o assoberbavam. Encontrava-se, nesse instante, perdido em suas elucubrações, tidas por ele como presságio, visão, mensagem ou algo da ordem. E então, o que ele faria, se se sentia tão encalhado como a um navio que se posta em um banco de areia, imobilizado, sem socorro? Realmente, deveria fazer por si mesmo, utilizar as armas que tinha à mão e decifrar esse seu enigma, libertar-se de seus obstáculos e avançar, sempre em frente, sempre em rumo.

Não se importava, grandemente, com o dinheiro; o suficiente para existir – para ele os valores eram mais altos do que aquilo que, simplesmente, está sobre a terra, pois sabia que tudo passa, que tudo passaria, e nada nos acompanharia, a não ser a nossa própria vida, o nosso encanto, as nossas descobertas, o nosso tamanho. Talvez, o que ele chamava de falta de ambição, de perspectiva, impediam-no de galgar mais, de ter mais, de poder mais no campo da matéria. Frustrava-se com isso, sentia-se despossuído, inadequado, incapaz por não poder como muitos. Às vezes, pensava estar vivendo de migalhas, como um cachorro que pega as sobras da mesa que caem no chão, e não como um príncipe, digno de toda a abundância do reino de seu pai/mãe. Onde é que estava falhando? O que não estava fazendo, ou o que estava fazendo que não progredia, não caminhava? Por acaso não prestara atenção e não apreendera os sinais da vida? Para onde olhava quando, já sabendo ler, o livro lhe era mostrado aberto, para que começasse a decifrá-lo? Realmente não sabia e ficava com a dúvida dentro de si. A sua estrada seria esta mesma: caminhar sempre indagando, procurando, caminhando por aquela estrada que não conhecia, jamais vira, mas que era sua; à procura de quê, de quem? Não, a vida não deveria ser tão enigmática, tão ingrata como ele concebia. Perdera-se sozinho, não tivera um guia; parecido com aquela pequena criança que se desvia, que se desenlaça das mãos de seus pais, quando de uma grande manifestação, uma grande festa onde há pessoas aos milhares – ela se distrai, se encanta com o facho de luz que corta os céus, e quando volta à terra, percebe que seus nobres não estão mais ao seu lado. E aí chora, grita, tem medo, procura; tem que lutar sozinha, pequena, verde que seja, mas tem que fazer isso. E leva sempre dentro de si que vai conseguir encontrá-los, por maior que seja o campo, pois sabe também que eles estarão à sua procura – o movimento é recíproco e sente que, novamente, vão atrair-se –, é a mesma busca, o mesmo fim, e o fato de encontrarem-se, é algo como que natural, inelutável, automático...

Sentia em seus dedos, a pulsação da vida, como a de um hábil pianista que, sensivelmente, sabiamente dedilha as teclas do seu instrumento. O sopro da vida impregnava-lhe as narinas, os pulmões, e aspirava profundamente, sentia que o ar o fortalecia, colocava-o em contato consigo mesmo; tudo isso acontecia  em sua armadura que é seu corpo, seu luminoso corpo, que reverberava com o som, a luz, a cor do universo. Em síntese, a sua vida nada tinha de diferente da de seus irmãos, o caso é que a dele era a dele, guardadas as devidas proporções, expansões, pulsações pertinentes a cada um que pisa neste solo. Era igual a todos, mas diverso de todos – ele era ele, na sua pele, no seu coração, na sua mente, e estava entendendo melhor essa mecânica quando começou a dar forma a esse vácuo que lhe tomava conta, fosse ele etéreo, sem forma, indefinível como Deus –, exótico, místico, ascético se fazia e moldava o seu boneco do barro que fora feito. Ar, água, luz, terra, fogo, madeira, pedra... Era concreto, no que tange à existência, como  qualquer um desses elementos, e voou, alçou outros planos, como um Condor, subiu, viu, sentiu, renasceu, como uma Fênix, transformou a sua vida em um cântico de louvação, como  um Uirapuru, conseguiu, chegou, taí, tá cá, tá em tudo, em todos, tá em Deus, em Zeus, tá em seus caminhos, tá consigo...  Ave!!!

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