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quinta-feira, 7 de abril de 2011

TESTAMENTO DE VIDA E DE MORTE
(como se fosse possível...)


"Vem por aqui" – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali..

Cântico negro – José Régio, Poemas de Deus e do Diabo, Lisboa, Portugália

... Nestes últimos tempos, percebia que só se vestia em negro, mas como se fosse possível, não gostaria que este seu auto fosse percebido, sentido, como mais uma gota do amargo da vida; como se fosse possível... Nada de tão duro como Lispector; não desejava assim; como se fosse possível...
     
Escrevia igual, como já escrevera antes, aquela que dizia ser sua obra mais prima possível; parecia-lhe o mesmo tom. O que havia de especial, de diverso? Nada, só o fato de provocar o seu exorcismo, como assim o fora dessa dita vez.

Realmente, estava gostando do trevoso. Era bonito o negro; sua pedra, sua roupa; faltava-lhe o perfume. Eh... será que, mesmo não gostando, também seria duro, amargo, triste, só provocando ais e uis a quem quer que lesse suas palavras?
     
O preto no branco, o branco no preto. A ausência no todo, o todo na ausência. Decifra ou este cromático enigma te devora, te come pelas beiradas, feito vingança de Scorpio.
     
Enquanto desfiava as linhas de seu testamento, se perguntava quem é que ia gostar do que ali estava encerrado. Claro que se perguntava, mesmo porque, ultimamente, lhe dominava a idéia de sair do anonimato; evidente, tinha o Meio do Céu em Taurus, e assim, queria brilhar fortemente, majestoso, ruminante e teimoso, brabo (às vezes) como este boiúno.
     
Voltando ao negro, não se via feio, mal no mesmo, uma vez que se sentia multicolorido em seu coração. O amor o fazia matizar tudo; era assim como lentes de arco-íris que via a vida. Por isso mesmo, não se doía quando dizia que queria abortar deus de sua vida. Onde estava aquele que não via nunca, só buscava, gritava, caçava, e o fulano, nem confiança dava; a mínima... Era isto mesmo que faria, se vingaria, tiraria deus lá de onde nem mesmo estava.

Desejava ter em mãos aquela obra, dita obra, em que se ensinava a deus a fazer as coisas. Era evidente que havia muitas coisas mal feitas, por fazer, incompletas, era evidente...

E enfim vira a obra, e não achara a suficiente agressiva, ainda faltava mais. Mais o quê? Mais arbítrio, mais mudança, transformação, pois no ponto onde tinha chegado, já era impossível voltar...

Percebia que os dias do povo daquela terra assim se passavam: no verão, com saudade do inverno, e no inverno, com saudade do verão, querendo chuva, quando de sol quente, e esse mesmo sol quando fazia chuva que empoçava quase tudo. 

As idéias ficavam cada vez mais pesadas e enegrecidas. 

Buscava ainda o dossel da paz, com flores par milliers. Com que força continuar, como puxar a carroça da vida, onde chegar? Talvez na terra que de tão prometida, nunca se chegava, tipo travessia do deserto, só sol e areia pela frente, escaldando esta dura existência. É... faltava emoção, surpresa, boa-nova, alegria. Onde estaria?

Mais uma vez se sentia assoberbado pela vida, e lhe parecia que de tempos em tempos era assim mesmo: cruel, banal, dolorida, levando por levar, os dias passando em brancas nuvens, e ele não querendo passar. Deveria existir uma saída, uma solução, assim como fórmula matemática, equação resolvida. 

Aonde?!

Estava duro, sem luz, quase desesperado, pois (assim sentia) nem túnel existia. Seria possível encontrar uma mão por aí?

Desejava a realização de seus sonhos, mas apenas com sua força. Não queria depender de ninguém, porém não era assim que a vida estava se apresentando. Sentia que era humilhante por demais ter que precisar dos outros, algo que o menoscabava, e muito. Sem nenhum adendo egoísta, acreditava que o que quisesse fazer, seria possível fazer só por ele mesmo, era só descobrir a via, pois bem sabia que havia.

Cadenciava por suas palavras, já que isso fazia com que as idéias se tornassem mais leves, mais digestivas; como se fosse possível... E assim procurava ter concepções uranianas: vanguarda, irreverência, excentricidade, cosmos, espaço, sans arrêt, assim como as de seu vigoroso parceiro poético; como se fosse possível...

Um dos últimos sobressaltos que ele tivera: tinha feito uma dívida grande demais com a vida, que não se sentia em condições de pagá-la; era assim. Se não pagasse tal dívida, o que lhe aconteceria? Seria encarcerado, deveria abrir mais mão do que lhe era caro, ou deixaria que ela aumentasse, acumulando mais e mais seus juros, penhora? É... difícil questão para se responder. 

Todavia, estava fazendo seus esforços no intuito de encontrar uma solução para este rasgo.

E para hoje como estará? Inquirir, tipo previsão, oráculo, sob o risco da fogueira; era sempre assim que fazia; sempre querendo saber o que, como aconteceria. Se não fosse possível, fazia sê-lo, desselando os fatos, acontecimentos, sua Caixa de Pandora, para que lá ainda pegasse a última esperança que restasse.

Em sua ciclotimia, seu coração e sua mente, semente pendular, germinava, e era assim que tudo em sua terra de leite e mel crescia; seu maná.

Gostava de brincar de Nospheratv, saído do passado, de negro, sobretudo; o sol... seus raios queimando como uma lente sobre o papel; o cheiro, o ar... rarefeito – raro efeito, fazendo seu efeito; baú aberto, espectro saindo, tomando forma, fazendo-se letra, nascendo, crescendo, vivendo, morrendo, renascendo... 

Vampiro!

Dizia-se: – Virgo Santo, Dai-me a ousada proteção nas minhas idéias, no que faço, no que falus. Aí vai!
Certa feita lera e gostara muito, mas não se lembrava bem em que lugar; talvez fosse necessário procurar, e muito, despertando como um mágico, este infernal provérbio, talvez... : o homem foi feito à imagem e semelhança de deus, assim como o diabo foi feito à imagem e semelhança do homem.

E proverbiando neste Hades de deus, sabia que a estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria; que aquele cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela, bem como, sabia,também, que a eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo; sabia...

Os sonhos, desejos que deixava, via acordar, existir, pois queria ouvir o que o silêncio que nele habitava tinha a dizer. Era esta a sua dura lenda do existir: sentindo-se encalhado no presente, sem saída no passado ou futuro. Seria anacrônico falar no presente e saber que o passado era a lembrança do futuro? Talvez... um reticente talvez, e talvez estava bem para explicar esta intrincada idéia do tempo que teve.

Em sua vida, o ritmo de mudança se fazia em anacruse, fraco no começo, mas antecedendo o passo forte que deve se iniciar, que fermentado crescia, progredia, evoluía, suleando as vias que percorria; era assim, do começo ao fim...         

Passado algum tempo, depois de tantos brocais, tanta ornamentação, ele voltava, mais uma vez emergia – ele e seu monstro – do lago, que de fogo queria. Não se esquecendo de sua linear paramentação, hoje tirava de sua cartola algo de já muito sentido, vindo das terras que norteia as horas do mundo, assim era: o que se leva da vida, é a vida que se leva. E pensava que a vida era ávida de vida, devida, dividida, assim pensava...

Com ele, também pensava quando esta descrição, esta averbação, verborragia, que rugia de tanto verbo, terminaria, quando; já não era tempo, não era hora, por que demora? É... não sabia; teria ainda mais gás para este guisado literário, esta comida que sua fome saciava? É... não sabia, só sabia que o limite, o farol vermelho, l'arrêt poderia se aproximar a qualquer momento. Talvez era isso mesmo o que queria: interceptar, terminar, finir, para não ser pleonástico, mais além do que, talvez, já fora, e para não deslizar por aí, seria necessário as setas de Cronos, indicando que já chegara ao fim mais esta viagem. É... terminaria, e deixaria, reticente, enigmático como sempre quisera ser, a sua última dica: de repente, despertava na Terra, naquelas terras, com a sensação de que estava vivendo num tempo adiante, a sua grande felicidade, a realização de todos os seus idílicos sonhos, e nesta pausa de felicidade que se dava, via todo o cordão de sua luta, vivida no caldo, na cinza dos dias, pois era um momento de escolha, do tipo: ou você transa com a vida ou a morte te estupra. Viu no que Deus??!!

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “Vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
– Sei que não vou por aí!



ntico negro – José Régio, Poemas de Deus e do Diabo, Lisboa, Portugália.

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